441 anos de João Pessoa: especialistas apontam desafios para conciliar crescimento e qualidade de vida

  • 05/08/2026
(Foto: Reprodução)
Vista da Praia de Cabo Branco, em João Pessoa Divulgação João Pessoa deixou de ser vista apenas como uma cidade tranquila para entrar na rota de quem busca morar, investir ou empreender. Nos últimos anos, a população aumentou, a construção civil ganhou força e o valor dos imóveis quase dobrou. Dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que João Pessoa foi a cidade com maior crescimento populacional entre as 20 maiores do Brasil. A população passou de 723.515 habitantes, em 2010, para 833.932 em 2022, um aumento de 15%. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp Agora no g1 Neste aniversário de 441 anos da capital paraibana, especialistas ouvidos pelo g1 avaliam como esse crescimento tem transformado a cidade e discutem quais desafios precisam ser enfrentados para que o desenvolvimento não comprometa a qualidade de vida dos moradores. Planejamento urbano não acompanha ritmo de crescimento, diz urbanista Em 2026, João Pessoa registrou alta de 15% no preço dos imóveis, a segunda maior entre as capitais brasileiras e a maior da série histórica da cidade, segundo o Índice FipeZAP. Nos últimos anos, o preço médio do metro quadrado passou de R$ 4,5 mil, em 2019, para cerca de R$ 8 mil em 2026. Apesar desse cenário, a arquiteta e urbanista Joyce Chaves avalia que a cidade ainda não está preparada para crescer nesse ritmo. Segundo ela, a verticalização e a valorização imobiliária avançam mais rápido do que os investimentos em infraestrutura e a capacidade de planejamento da cidade. "A cidade não está preparada, porque o ritmo da valorização e da verticalização está avançando mais rápido do que o ritmo do investimento em infraestrutura e da capacidade institucional de gerir esse crescimento de forma redistributiva. Isso não é uma particularidade de João Pessoa, pois é um padrão recorrente em cidades brasileiras que cresceram de forma acelerada", explica. Orla de João Pessoa Créditos/Rede Paraíba Segundo a especialista, esse descompasso pode ser observado porque parte da expansão da cidade ocorreu, principalmente a partir da década de 1990, sobre corredores naturais de ventilação e áreas de recarga hídrica sem o controle técnico adequado. Como consequência, João Pessoa passou a enfrentar problemas estruturais, como ilhas de calor e maior vulnerabilidade a alagamentos. "Quando a cidade cresce em valor e em altura, mas não cresce na mesma proporção em mobilidade, saneamento e espaço público para todos, passa a correr risco de perder qualidade de vida. A literatura descreve esse fenômeno como resultado de uma "máquina de crescimento", que tende a promover, simbolicamente, a expansão urbana como sinônimo de progresso, o que pode mascarar seus custos sociais e ambientais”, explica. Ou seja, para a urbanista, conciliar o crescimento da construção civil com a qualidade de vida depende da aplicação de instrumentos já previstos na legislação urbanística. Entre eles estão: Estudos de impacto de vizinhança antes da aprovação de grandes empreendimentos; Mecanismos para que parte da valorização imobiliária seja revertida em infraestrutura; Habitação de interesse social e a regularização fundiária de comunidades já consolidadas. "Há ainda um aspecto frequentemente negligenciado: esse é justamente o cenário que mais ameaça o principal ativo que atrai a população e os investimentos para a cidade. A imagem de qualidade de vida, que hoje sustenta boa parte da valorização imobiliária, tende a se deteriorar caso a infraestrutura e as condições ambientais não acompanhem o crescimento urbano", finaliza. Cidade de 15 minutos Enquanto João Pessoa ganha moradores, outro número cresce ainda mais rápido: o da frota de veículos. Um levantamento da CBN Paraíba, divulgado em maio de 2026 com base em dados do Departamento Estadual de Trânsito da Paraíba (Detran-PB), mostra que o número de veículos registrados na capital cresceu 49% em dez anos, mais de três vezes acima do crescimento da população no mesmo período, que foi de 15%, segundo o Censo 2022 do IBGE. Para o especialista em mobilidade urbana André Agra, esse cenário aumenta a pressão sobre a infraestrutura viária e reforça a necessidade de repensar o modelo de crescimento da cidade. "A frota de veículos cresce muito mais do que a população. Naturalmente, toda a infraestrutura viária e de mobilidade urbana voltada para o transporte por carro particular fica sobrecarregada e tende ao esgotamento, como já vem dando sinais. Todas as cidades mundiais que ainda estão priorizando estrutura viária para suportar mais transporte individual particular, não estão funcionando", comenta. Nesse sentido, Agra defende que uma das formas de preparar João Pessoa para os próximos 20 anos é reduzir a necessidade de grandes deslocamentos diários. Para isso, ele cita o conceito de cidade de 15 minutos, modelo de planejamento urbano que aproxima o cidadão das demandas diárias, como trabalho, mercado e lazer. 🔎 O conceito de cidade de 15 minutos foi desenvolvido pelo cientista franco-colombiano Carlos Moreno e ganhou projeção internacional a partir de 2020, quando passou a orientar políticas urbanas em cidades como Paris, na França. A proposta é que as necessidades do dia a dia possam ser atendidas a até 15 minutos de caminhada, bicicleta ou transporte público da residência. “Hoje, a tendência mundial é que cada bairro seja uma minicidade, um conceito que a gente chama de cidade de 15 minutos. É preciso aproximar distâncias. Tem que ter assentamentos subsidiados nessas áreas que são geradoras de renda e nessas que são mais longe, também tem que estimular o negócio para que o trabalhador se desloque o menos possível para poder ter o seu ganha pão e ter o seu lazer”, conta. Saneamento e preservação ambiental O crescimento de João Pessoa também aumenta a demanda por saneamento básico. Dados do Instituto Trata Brasil, divulgados em março de 2026, mostram que a cobertura de esgoto na capital caiu para 72,36% entre 2020 e 2025. Com a piora do indicador, João Pessoa perdeu 14 posições no ranking nacional de saneamento. Para a engenheira ambiental Kátia Lemos, a ampliação da coleta e do tratamento de esgoto é uma das medidas mais importantes para reduzir os impactos do crescimento urbano. "A ausência de coleta e tratamento de esgoto resulta no lançamento de efluentes in natura em rios, riachos, estuários e no solo, provocando contaminação dos recursos hídricos, degradação dos ecossistemas aquáticos e redução da qualidade da água", explica. Segundo a especialista, esse cenário também favorece o aumento de doenças de veiculação hídrica e compromete o desenvolvimento dos municípios. No entanto, a engenheira ambiental explica que ampliar a rede de coleta e tratamento de esgoto é apenas parte do desafio. Segundo ela, o crescimento urbano sem planejamento também afeta diretamente o meio ambiente. "O crescimento urbano, quando ocorre sem planejamento adequado, provoca diversos impactos ambientais, como a impermeabilização excessiva do solo, aumento das ilhas de calor, supressão da vegetação nativa, ocupação de áreas ambientalmente sensíveis e aumento da geração de resíduos sólidos", disse. Ela explica que esses fatores favorecem alagamentos, erosão, assoreamento de rios e perda da biodiversidade, além de aumentar a pressão sobre os sistemas de drenagem. Kátia Lemos destaca ainda que preservar áreas verdes faz parte da solução. Segundo ela, esses espaços ajudam a regular a temperatura da cidade, favorecem a infiltração da água da chuva no solo e reduzem o risco de enchentes. "As áreas verdes desempenham funções ambientais essenciais para o equilíbrio urbano. Elas auxiliam na regulação do microclima, reduzem a temperatura, favorecem a infiltração da água no solo, diminuem os riscos de enchentes, melhoram a qualidade do ar e contribuem para a conservação da biodiversidade. Preservar esses espaços deve ser uma prioridade em qualquer processo de expansão urbana sustentável", conta. A especialista ainda comenta que por ser uma cidade litorânea, João Pessoa também precisa conciliar a expansão urbana com a preservação dos ecossistemas costeiros. A engenheira afirma que a ocupação irregular de áreas de preservação permanente, o desmatamento e o descarte inadequado de resíduos aumentam a pressão sobre manguezais, rios e praias. "Os manguezais exercem papel fundamental na proteção da linha de costa, na manutenção da biodiversidade e na reprodução de diversas espécies marinhas. Sem planejamento urbano, fiscalização efetiva e cumprimento da legislação ambiental, esses ecossistemas tornam-se mais vulneráveis à degradação, comprometendo tanto os serviços ecossistêmicos quanto a economia local, especialmente o turismo e a pesca artesanal", completa. Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba

FONTE: https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2026/08/05/441-anos-de-joao-pessoa-especialistas-apontam-desafios-para-conciliar-crescimento-e-qualidade-de-vida.ghtml


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