Há 42 anos, Amyr Klink chegava à Bahia após travessia de 100 dias em barco a remo: 'Sabia que ia chegar, vivo ou morto'

  • 18/09/2026
(Foto: Reprodução)
Há 42 anos, Amyr Klink chegava à Bahia após travessia de 100 dias em barco a remo Há 42 anos, o navegante Amyr Klink chegava à Praia da Espera, em um distrito de Camaçari, no litoral norte da Bahia, e se tornava a primeira pessoa a cruzar o Atlântico Sul a remo em solitário, como a travessia ficou conhecida. O nome da praia, que faz referência à espera das esposas dos pescadores, ganhou um novo significado para o paulistano: após mais de 100 dias sozinho em alto mar, ele tinha finalmente chegado em terra firme. "Eu sabia que ia chegar desde o começo, vivo ou morto", afirmou em entrevista ao g1. O momento marcou o fim de uma viagem que parecia impossível para muita gente. Amyr havia passado 100 dias e nove horas sozinho no oceano, entre Lüderitz, na costa da Namíbia, e o litoral baiano. 🚣🏼 Foram cerca de 3.700 milhas náuticas, quase 7 mil quilômetros, percorridas em um barco de apenas 5,94 metros de comprimento e, no máximo, 1,52 metro de largura. Detalhe: não havia motor. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia A única força que Amyr tinha para avançar era a dos próprios braços. A rotina incluía aproximadamente oito horas diárias de remadas, além de preparar as refeições, limpar a embarcação, dormir e lidar com os encontros inesperados que surgiam no meio do caminho: tubarões, baleias, gaivotas e peixes. Navegador enfrentou sozinho o Atlântico Sul em uma embarcação de menos de 6 metros. Divulgação O desafio era ainda maior porque, em 1984, a tecnologia disponível era muito diferente da atual. Não existia GPS para mostrar a localização em tempo real. Para se orientar, Amyr usava um sextante — instrumento que permite calcular a posição de uma embarcação a partir da observação de astros. A comunicação também era limitada. Não havia mensagens instantâneas ou chamadas de vídeo. Amigos e familiares precisavam esperar os horários combinados para conseguir falar com ele por rádio. Barco desenhado para enfrentar o oceano Initial plugin text Amyr não foi apenas o homem que remou por 100 dias. Ele participou de praticamente todas as etapas do projeto. A embarcação foi desenhada especialmente para a viagem e preparada para enfrentar as condições do Atlântico Sul. A definição da rota encerrada na Bahia também levou em conta as correntes do oceano e a época do ano. "Eu escolhi esse ponto [o litoral baiano] em função das correntes e ventos. Foi muito legal chegar no ponto escolhido", lembrou Amyr. Até a alimentação do navegador foi planejada com antecedência: eram 150 embalagens com café da manhã, almoço e jantar, com alimentos desidratados e sem sal. A ideia era manter uma dieta equilibrada e, ao mesmo tempo, reduzir o peso e a quantidade de alimentos transportados. O oceanógrafo Guilherme Camargo Lessa, do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (Igeo - Ufba), estudioso sobre o assunto, explica que o barco também era favorecido pelas condições naturais encontradas durante parte da rota. Segundo ele, vento e correntes ajudavam a empurrar a embarcação na direção do Brasil. Mas isso não significa que Amyr poderia simplesmente sentar e esperar chegar: as remadas foram fundamentais para acelerar o percurso. "O fato dele ter remado, isso fez com que ele percorresse o caminho em menos tempo", explicou o oceanógrafo. Considerando esse cenário, Lessa afirma que a viagem foi ficando menos complicada à medida que Amyr avançava para o norte, onde as condições meteorológicas tendiam a ser mais estáveis e havia menos influência de fortes frentes frias. Apreensão na Namíbia e outros riscos não previstos Amyr Klink relembra travessia do Atlântico há 35 anos em entrevista ao G1 Fábio Tito/G1; Amyr Klink/Arquivo pessoal Embora a imagem mais marcante da viagem seja a de Amyr sozinho no meio do oceano, ele conta que um dos períodos mais difíceis aconteceu antes mesmo de deixar a África. O barco chegou a ser apreendido no porto de Lüderitz, na Namíbia, que na época ainda estava sob ocupação da África do Sul. As autoridades locais estavam preocupadas com a possibilidade de precisar realizar uma operação de resgate, caso o brasileiro tivesse problemas durante a travessia. "Os 100 dias sozinho foi quase que um prêmio perto das dificuldades que eu passei antes". O oceanógrafo Guilherme Lessa pondera que, além do conhecimento sobre o mar, uma viagem daquele tipo exigia uma grande capacidade psicológica. "Você tem que ter uma capacidade de resiliência muito grande para viajar sozinho", explicou. Havia ainda riscos imprevisíveis, como colisões com objetos à deriva, animais de grande porte e problemas estruturais na embarcação. O barco precisava ser capaz de enfrentar ondas e, em caso de virar, retornar à posição normal. "Eu sabia que ia chegar desde o começo" Apesar dos riscos, Amyr afirma que nunca considerou a possibilidade de não chegar à Bahia. "Eu sabia que ia chegar desde o começo, vivo ou morto. O problema é que morto ia levar uns dois anos aí, de deriva, e ia ser desagradável para quem me encontrasse". A chegada, no entanto, não foi simplesmente remar até encontrar a primeira faixa de areia. Nas últimas horas da viagem, Amyr procurou um lugar seguro para desembarcar. O litoral norte da Bahia tinha poucos abrigos naturais e ele queria encontrar um pequeno porto de pescadores. Foi assim que chegou à Praia da Espera, em Itacimirim, localidade de Camaçari. "Eu queria chegar num portinho de pescadores aonde tivessem outros barcos e eu achei esse portinho. Não conhecia a Praia da Espera, mas acho que até o nome da praia onde cheguei foi sugestivo", refletiu. Amyr e Arliton na cabana de praia em Itacimirim, no litoral norte da Bahia Arquivo pessoal O empresário baiano Arliton Torres Ferrão estava em Itacimirim quando Amyr chegou em seu barco a remo. Na época, o local ainda estava longe de se tornar o destino turístico famoso que é hoje: a vila de era frequentada por surfistas e velejadores, e quem morava no local costumava viver da pesca. "Naquele dia, saí da praia e não tinha nada acontecendo. Mais tarde, na vila, começou o zum zum zum sobre um homem que veio de barco da África', lembrou. Segundo Arliton, os pescadores acharam que Amyr voltava de uma pescaria frustrada e se surpreenderam ao saber que ele havia atravessado o oceano. O navegador, então, recebeu a ajuda dos pescadores e comeu uma boa moqueca baiana depois de 100 dias com "refeições de astronauta". No dia seguinte, Amyr partiu de Itacimirim para Salvador e Arliton se preparou para ver de perto a saída. O que ele não esperava é que os dois se tornariam amigos. Dono do empreendimento baiano Cabana Franga Fogosa há 40 anos, o baiano costuma receber o paulista e a família em suas passagens pela Bahia. Chegada de Amyr Klink após a travessia em 1984 Amyr Klink/Arquivo pessoal Em Salvador, a recepção foi marcada por uma multidão e por uma cena que ficou na memória do navegador: pessoas subiram em andaimes próximos ao Mercado Modelo para tentar acompanhar a chegada. "Era uma parede humana", comparou Amyr. 📚 A aventura também virou livro. Os registros feitos durante os 100 dias no mar deram origem a "Cem Dias Entre Céu e Mar", publicado após a expedição e transformado em um dos principais relatos brasileiros de aventura e navegação. Feito repetido após mais de 40 anos Raphael após chegada em Salvador Arquivo pessoal Segundo Amyr Klink, depois do recorde de 1984 ninguém havia repetido o feito de cruzar o Atlântico Sul a remo sozinho. Foram necessários quase 42 anos para que um outro paulistano pensasse: "por que não?". Raphael Garcia, de 34 anos, conta que a ideia de refazer a travessia surgiu em 2022, após ler o livro do recordista. O "pequeno detalhe" é que Garcia nunca havia remado na vida. "Eu pensei: 'como, depois de tanto tempo, ninguém refez essa viagem?', então quis fazer. Como nunca tinha remado antes, me preparei durante quatro anos", relatou. Morador da Nova Zelândia há 10 anos, o brasileiro fez aulas de remo, participou de pequenas viagens como treinamento e, junto com um arquiteto naval, montou um barco inspirado no modelo utilizado em 1984. Ele também teve ajuda do próprio Amyr, que se interessou pela história e deu dicas. Quatro anos depois, em abril de 2026, Garcia partiu da Namíbia com destino à Bahia. "Só contei para minha família quando já estava tudo pronto. Eles ficaram muito preocupados, acharam que eu não chegaria vivo". Raphael foi recebido por Amyr Klink na sua chegada na Bahia Arquivo pessoal A viagem durou exatos 136 dias e 40 minutos. O brasileiro conta que enfrentou diversas tempestades na saída da Namíbia e chegou a ficar cinco dias inteiros dentro da cabine do barco. A rotina da viagem consistia em remar entre 8h e 12h por dia, comer comida desidratada, usar um equipamento para tirar o sal da água do mar e escrever. Segundo ele, desistir nunca foi uma opção, nem mesmo nos momentos mais complicados da viagem. "Nunca pensei em desistir, mas houve momentos que me perguntei: 'o que estou fazendo aqui?'", brincou. A chegada na Bahia aconteceu em 22 de agosto. Na areia, familiares e amigos de Raphael o receberam ao lado de ninguém mais, ninguém menos que o próprio Amyr Klink. "Pra mim, conhecê-lo foi o ápice! Poder fazer amizade e conversar sobre a minha viagem com quem me inspirou foi incrível", disse Garcia. Mais de quatro décadas depois, a história chega aos cinemas Filipe Bragança será Amyr Klink em “100 DIAS”. Fabio Braga/ Pivô Audiovisual Agora, 42 anos depois da travessia que colocou Amyr Klink na história da navegação brasileira, a aventura também chega às telonas. O filme "100 Dias", dirigido por Carlos Saldanha, estreia exclusivamente nos cinemas em 29 de outubro de 2026, com o ator Filipe Bragança interpretando o navegador. A produção é inspirada no livro autobiográfico "Cem Dias Entre Céu e Mar", mas não se limita a reproduzir a viagem. No livro, Amyr registrou os desafios e descobertas dos 100 dias em alto-mar. No cinema, a travessia promete ganhar uma dimensão ainda mais pessoal: além da batalha contra as ondas e a solidão, será mostrado como o navegador também precisou lidar com as próprias lembranças e escolhas. Da esquerda para a direita: Felipe Camargo, Philippine Leroy-Beaulieu, Filipe Bragança e João Vitor Silva. Fabio Braga/ Pivô Audiovisual Veja mais notícias do estado no g1 Bahia. Assista aos vídeos do g1 e TV Bahia 💻

FONTE: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/09/18/amyr-klink-chegava-a-bahia-apos-travessia-de-100-dias-em-barco-a-remo-ha-42-anos.ghtml


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